“O que permanece é o que foi”

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“O trabalho de toda uma vida é como um navio
que a gente mesmo construiu, equipou, lançou à
água, confiou ao mar, dirigiu a um destino e,
então, como um passageiro que perdeu a viagem,
ficou sentado à beira do cais, vendo a nave
perder-se no horizonte. O que permanece é o que
foi”

Encontrei a frase acima numa dissertação de mestrado. Ela foi atribuída à Jung, embora não tenha referência. Em todo caso, condensa uma característica que vou aprendendo a reconhecer – e a apreciar – em Jung, qual seja, o necessário despertencimento que nos caracteriza.

***

“O que permanece é o que foi”. Difícil dizer melhor da relação não linear, não controlada, não apaziguável, que mantemos com nossa própria vida. “O que foi” é, numa primeira leitura, o que conseguimos “por em movimento” – uma ideia, uma palavra, um gesto. Algo que expressamos o suficiente para que continue nosso movimento “lá fora”, e lá fora… prossiga, sozinha, num movimento que já não é “nosso”.

Estranhamente, no entanto, isso é “o que permanece”. Como a dizer que aquilo que é “nosso” só permanece conosco quando encontra suporte num “outro”, num fora.

De certa forma, então, nos reencontramos conosco mesmo num “centro descentrado”. Reencontramos nosso ser num eco que vem de fora. Nosso próprio movimento, alojado no real, nos acena – como “Eu” – no “outro”.

***

Esse reencontrar a si mesmo no que vem de fora diz de nossa complexa manutenção subjetiva. Como no jogo oriental do “yin / Yang”, trazemos em nosso inconsciente uma alteridade, embora nele se encontre também nosso ser mais profundo.

Aquilo que é “nosso” não nos pertence totalmente. Ou, antes, nós é que pertencemos à ele: o Ego, desalojado de sua própria casa, aprende aos poucos a se identificar com qualquer coisa. Uma perda que, estranhamente, nos devolve ao nosso ser.

Por isso certas imagens não morrem: elas falam da vida que nos atravessa – à nossa revelia. Como o “andarilho”, ou “aquele que perde a viagem”, estamos sempre um pouco aquém do que nos acontece. E isso é bom. É condição para que algo, em nós, permaneça. Passando

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