Nossa crença no futuro

Os últimos 100 ou 200 anos foram repletos de transformações tecnológicas. Se compararmos a vida de um monarca do séc XVIII com a de um cidadão de classe média atual, é possível que nosso cidadão viva melhor, em termos de conforto. É natural, portanto, que acreditemos no futuro, na nossa capacidade de engenho, na tecnologia.

No entanto, a exuberância de nosso crescimento exterior não foi acompanhada de um crescimento moral de mesma monta. Somos, em média, os mesmos seres humanos do passado. Talvez piores. E isso cria uma dissonância interessante, que põe em questão nossa crença – ingênua? – no futuro.

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Se nos colocamos no ponto de vista do passado, percebemos claramente que algo não saiu como esperado. Esperávamos, por exemplo, ter mais tempo livre, com a invenção de máquinas de todo tipo. As máquinas vieram, e, de fato, facilitaram muita coisa. Mas, junto com a facilidade, veio uma cobrança também mais fácil.

A percepção do tempo mudou, para todos. O tempo ganho pelas máquinas foi reinserido na ‘máquina social’, de maneira que o resultado foi nulo. Os compromissos que precisavam ficar para “semana que vem”, por questões logísticas, puderam ser agendados para “hoje de tarde”. E tudo passou a ficar corrido, novamente.

Em outros termos, o tempo que ganhamos, objetivamente, foi compensado por uma expectativa de resultados mais rápidos, subjetivamente. Passou a ser “impossível” esperar o que antes era “normal”. Queremos tudo mais rápido, agora que as coisas são mais rápidas. Resultado = tempo livre nenhum.

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Estou querendo dizer que toda questão humana tem ao menos dois lados: um, objetivo, e outro, subjetivo. E as coisas nem sempre funcionam quando focamos apenas em um deles, como geralmente acontece quando pensamos no futuro e na tecnologia.

Nunca teremos, por exemplo, mais tempo livre, enquanto não fizermos escolhas subjetivas nesse sentido. Vale dizer: enquanto não desistirmos de olhar as últimas tendências (da moda, das viagens, da vida dos outros etc); ou enquanto não priorizarmos as nossas necessidades (de ficar com a família; de ler um livro, ou simplesmente de não fazer nada), aceitando pagar o preço que essas escolhas impõe.

Se, para ter mais tempo, eu talvez precise de um emprego menos rentável, ou uma vida materialmente mais simples, isso deveria ser uma escolha possível. Hoje, ela parece estar descartada por princípio.

Mas isso só é assim justamente porque desconsideramos o aspecto subjetivo de tudo. E priorizamos o externo, o objetivo, acreditando ingenuamente que isso não terá custo algum para nossa vida. Sempre tem. E se o custo não aparece, objetivamente, podemos saber que o custo é subjetivo. Estamos pagando em “vida”.

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