Psicanálise e ciência: problemas insolúveis?

Lacan dizia que o equívoco é parte essencial de qualquer diálogo, e talvez poucas coisas exemplifiquem isso tão bem quanto a relação conturbada – se é que dá pra chamar isso de “relação” – entre psicanálise e ciência.

Neste post vou tentar destrinchar alguns dos vários ‘nós’ que percebo entre esses dois campos, sugerindo que, ao final, ainda há – talvez – alguma esperança.

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Comecemos definindo os dois campos: por psicanálise estou entendendo uma prática clínica e de pesquisa, baseada numa teoria, que envolve fundamentalmente a ideia de que a maior parte dos acontecimentos subjetivos acontecem fora do alcance do ego. Vale dizer, são inconscientes. Não temos, em geral, percepção deles.

Por ciência estou entendendo um método de pesquisa e de sustentação / refutação de hipóteses, onde a objetividade da prova é essencial.

Já de saída percebemos um desencontro aqui: enquanto a objetividade está no centro da ciência, na psicanálise, quase tudo acontece fora da objetividade.

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Sete passos para a manutenção de um desentendimento histórico:

  1. Em primeiro lugar, quero mencionar que, historicamente, a psicanálise deu pouca atenção ao esforço de encontrar sustentação material, objetiva – i.é, científica – para seus postulados. Acredito que isso foi grandemente impulsionado pelo fato de que, para quem vive dentro da ‘bolha’ psicanalítica – isto é, para quem foi analisado, e vê, na prática clínica, a materialização dos conceitos – , essas provas materiais acontecem diariamente. Todos os pacientes dão “provas” dos conceitos psicanalíticos, para quem “sabe” vê-los. E isso nos leva ao segundo ponto:
  2. O fato da clínica psicanalítica ter alguma efetividade – isto é, dela funcionar -, facilitou a criação de uma espécie de acúmulo de provas científicas “paralelo”. Vale dizer: os psicanalistas conversam entre si e trocam material que confirma, para eles, as teses da psicanálise. Isso acontece, obviamente, totalmente ao largo das trocas mais amplas do mundo científico em geral. Criam-se dois ‘mundos’ científicos, duas culturas de acumulação de provas que não se comunicam.
  3. O ponto central aqui é que as provas obtidas pelos psicanalistas na clínica não são provas explícitas, óbvias, diretas. Elas apenas funcionam como “provas” para quem tem o ferramental psicanalítico, o qual permite interpretar os acontecimentos como algo diferente daquilo que eles são, manifestamente. Ou seja, o saber psicanalítico permite encontrar um sentido latente no comportamento dos pacientes. O qual, para repetir, não está dado de forma manifesta, direta, mas apenas indiretamente.
  4. Isso cria uma série de confusões, como a de um colega psiquiatra, que me dizia que “nunca nenhum paciente chegou pra ele reclamando da mãe” – ou seja, ele esperava um comportamento manifesto, onde a psicanálise apregoa um comportamento latente. Mas a postura de meu colega é exemplar de um grande número de críticas da psicanálise: se recusa o sentido latente postulado pela teoria, através dos comportamentos manifestos.
  5. No fundo, essas críticas são expressões do encontro – ou desencontro! – entre a necessidade de objetividade da ciência “normal”, e a “objetividade indireta” que os praticantes da psicanálise encontram na clínica. O que nos leva a pensar se todo construto teórico da psicanálise é “indireto”, isto é, se não haveria nada manifesto, nada que pudesse ser capturado pela pesquisa ‘normal’.
  6. E a resposta é que – sim! alguns contrutos podem ser acompanhados diretamente – especialmente na atualidade, quando uma série de novas tecnologias têm permitido acompanhar objetivamente aquilo que acontece à nível subjetivo nos sujeitos – vale dizer: a nível inconsciente. E alguns vêm encontrando comprovação científica “normal” [1]
  7. Poderíamos esperar, então, que os psicanalistas estivessem muito interessados nessas novas provas, não é mesmo? Bem, na verdade, não é isso que parece. A impressão que se tem é a de que, para os ‘convertidos’, não são necessárias mais provas. Ou ainda, parece que se confia mais na capacidade de ‘prova’ da análise pessoal, do que nesse “desvio” pelas provas objetivas das neurociências, por exemplo.

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A partir desse ponto, é interessante diferenciar dois modos de entender a psicanálise, que existem ainda hoje, e tem implicações quanto à cientificidade possível dessa teoria:

  • OU a psicanálise descreve processos que são inconscientes apenas do ponto de vista do ego, mas que poderiam ser observados desde outros pontos de vista (máquinas, exames, textos, etc). Ou seja, o inconsciente não é inobservável “em si”;
  • OU a psicanálise descreve processos que são inconscientes e não observáveis “em si”, dado que só se estruturam como tais a partir da posição subjetiva de cada um;

A primeira psicanálise descrita é a psicanálise de Freud e também a de Winnicott, segundo minha leitura. Nela, os processos inconscientes existem, mas sua “inconsciência” não é fundamental em si mesma. E apenas importa para o ego, para a consciência. Pode ser observada por outros meios extra-conscientes – como começa a acontecer na moderna neurociência, conforme notas neste post. [1[

A segunda psicanálise descrita exprime meu entendimento da proposta de Lacan. Segundo essa leitura, a própria posição assumida pelo sujeito interfere naquilo que será “inconsciente” para ele. Ou seja, a “inconsciência”, aqui, não é um atributo que dependa apenas do ego, mas um fato absoluto. A posição do sujeito muda tanto seu ego quanto seu inconsciente, e portanto, não há o que ser observado objetivamente no inconsciente, mesmo para além do ego.

Nesse caso, a psicanálise seria uma ciência discursiva, uma ciência do discurso, que seria o método para apreender, em cada caso singular, como está se dando a relação entre consciência e inconsciência.

***

Concluo lembrando que a própria ciência não é um dado absoluto. Ela mesma muda, assim como os resultados que ela legitima em cada época. Entendo que a psicanálise deve seguir buscando apoio na ciência normal, sempre que possível, ao mesmo tempo que entendo que a ciência não é o único parâmetro para tudo.

Isto é, desde que exista eficácia suficiente para seguir praticando algo, é lícito, me parece, dar um “voto de confiança” a toda prática clínica. Quem sabe se, amanhã, as coisas não serão diferentes, do ponto de vista da ciência?

Por fim, no caso da psicanálise que chamei de lacaniana, mantido o fundamento na eficácia, penso que ganhamos mais em manter uma prática, mesmo que impossível de legitimar cientificamente, do que excluindo algo que poderia ser de ajuda. Talvez, mesmo a psicanálise de Freud e de Winnicott guardem um pouco dessa perspectiva, ao fazer assentar na história de cada um os condicionantes do comportamento do adulto. Penso numa psicanálise que se distribui entre esses dois extremos.

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Notas:

[1] Alguns construtos da psicanálise que encontram validação científica são:

  • Id, Ego e Superego correspondem a processos cerebrais distintos, cf. Goldman-Rakic, P.S. “The Prefrontal Landscape: Implications of Functional Architecture for Understanding Human Mentation and the Central Executive”. Philosophical Transactions of the Royal Society of London: Series B, Biological Sciences 351, pp 1445-53, 1996. Ver tbém Panksepp, J. “Affective Neuroscience: The Foundations of human and Animal Emotions”. Oxford: Oxford University Press, 1998. No livro “O oráculo da noite”, de Sidarta Ribeiro, encontram-se linkados outras pesquisas, na pg 425 da 1ª edição)

  • a psicoterapia pela palavra, introspectiva e reflexiva, é clinicamente eficaz e imprescindível na maior parte dos casos, cf. Abbass, A. A.; Hancock, J. T.; Henderson, J. e Kisely, S. “Short-Term Psychodynamic Psychotherapies for Common Mental Disorders”. Cochrane Databae of Systeatic Reviews 4, CD0046, 2006. Ver também Panksepp, J.; Wright, J.S.; Döbrössy, M. D; Schlaepfer, T. E. e Coenen, V.A. “Affective Neuroscience Strategies for Understanding and Treating Depression: From Preclinical Models to Three Novel Therapeutics”. Clinical Psychological Science 2, pp 472-94, 2014.

  • Os sonhos não se reduzem ao sono e refletem traços de memórias adquiridas na vigília, cf Stickgold, R.; Malia, A; Maguire, D.; Roddenberry, D. e O’Connor, M. “Replaying the Game: Hypnagogic Imagens in Normals and Amnesics”. Science 290, pp. 350-3, 2000. Ver também Wamsley, E. J.; Perry, K.; Djonlagic, I.; Reaven, L.B. e Stickgold, R. Cognitive Replay of Visuomotor Learning a Sleep Onset: Temporal Dynamics and Relationship to Task Performance”. Sleep 33, pp. 59-68, 2010. Ainda Wamsley, E.J.; Tucker, M.; Payne, J.D.; Benavides, J.A. e Stickgold, R. “Dreaming of a Learning Task Is Associated with Enhanced Sleep-Dependent Memory Consolidation”. Current Biology 20, pp 850-5, 2010.

  • Memórias podem ser suprimidas, cf Anderson, M.C. e outros. “Neural Systems Unerlying the Suppression of Unwanted Memories”. Sciense 303, pp. 232-5, 2004. Ver também Depue, B.E.; Curran, T. e Banich, M.T. “Prefrontal Regions Orchestrate Suppression of Emotional Memories Via a Two-Phase Process”. Science 317, pp. 215-9, 2007.

  • Sem a atividade de circuitos dopaminérgicos envolvidos no desejo não existe sonho, cf Solms, M. “Dreaming and REM Sleep Are Controlled by Different Brain Mechanisms”. Behavioral and Brain Science 23, pp 843-50, discussão 904-1121, 2000. Ver também Perogamvros, L. e Schwartz, S. “The Roles of the Reward System in Sleep and Dreaming”. Neuroscience Biobehavioral Review 36, pp. 1934-51, 2012.

  • Relatos de sonho são particularmente informativos do estado psiquiátrico do paciente, cf Mota, N.B. e outros. “Speech Graphs Provide a Quantitative Measure of Thought Disorder in Psychosis”. PLoS One 7, p. e34928, 2012. Ver também Mota, N.B.; Furtado, R.; Maia, P.P.; Copelli, M. e Ribeiro, S. “Graph Analysis of Fream Reports Is Especially Informative about Psychosis”. Science Reports 4, p. 3691, 2014. Mais em Sidarta Ribeiro, pp 425, op. cit.

  • A sexualidade começa na infância e pode persistir por toda a vida, cf Reinisch, J. The Kinsey Institute New Report on Sex: What You Must Know to be Sexually Literate. Nova York: St. Martin’s, 1991. Ver também Ryan, G. “Childhood Sexuality: a Decade of Study. Part I: Reserach and Curriculum Development”. Child Abuse & Neglect 24, pp. 33-48, 2000. Ainda, cf Friedrich, W.N. e outros. “Child Sexual Behavior Inventory: Normative, Psychiatric, and Sexual Abuse Comparisons”. Child Maltreatment 6, pp. 37-49, 2001.

  • Traumas podem marcar indelevelmente o comportamento futuro, inclusive da prole, cf McGowan, P.O. e outros. “Epigenetic Regulation of the Glucocorticoid Receptor in Human Brain Associates with Childhood Abuse”. Nature Neuroscience 12, pp 342-8, 2009. Ver também Zhang, T.Y.; Labonte, B.; Wen, X.L.; Turecki, G. e Meaney, M.J. “Epigenetic Mechanisms for the Early Environmental Regulation of Hippocampal Glucocorticoid Receptor Gene Expression ir Rodents and Humans”. Neuropsychopharmacology 38, pp 111-23, 2013. Ainda, cf Pena, C.J. e outros. “Early Life Stress Confers Lifelong Stress Susceptibility in Mice Via Ventral Tegmental Area OTX2”. Science 356, pp. 1185-8, 2017.

3 Respostas para “Psicanálise e ciência: problemas insolúveis?

  1. Belo texto. Acho que esse é um assunto pouco tratado entre os psicanalistas e que talvez por isso acabou rendendo aquela “treta” entre o Dunker e psis adeptos à psicologia baseada em evidências.

    Acho que as psicologias no geral sofrem alguns problemas em relação à legitimidade de sua eficácia terapêutica – principlamente em relação a replicabilidade de seus achados – e o movimento das “PBE” é de pegar a autoridade e metodologia da medicina para conferirem maior eficiência para si.

    A psicanálise partilha de alguns problemas de outros tipos de psicoterapia também, penso que alguns sejam:
    1) As provas da teoria psicanalítica são clínicas, ou seja, são “vistas” pelos próprios psicanalistas em seus consultórios, o que dá um nível baixo de evidência, do ponto de vista científico, à teoria. Isso porque ignora que estes possuem certas predisposições de “ver” e confirmar a teoria. Vemos aquilo que estamos predispostos a ver, afinal. A astrologia também vê confirmações da influência dos astros na vida cotidiana..

    2) Embora a psicanálise apresente um nível terapêutico considerável, tanto em remoção de sintomas quanto uma transformação subjetiva entre os analisantes. É difícil afirmar que essa transformação se dá justamente pelas justificativas teóricas que dá o psicanalista e não por outras razões como pela relação que é estabelecida com o terapeuta ou acontecimentos da vida no geral.

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    • Luis, obrigado pelo comentário! Concordo com você. Há um abismo entre a consistência das correlações obtidas pela ciência normal (mesmo na medicina) e as correlações entre variáveis que dispomos em psicologia. As grande teorias talvez aumentem o abismo, porque já pressupõe uma série de coisas ainda não provadas. Não entrei muito a fundo nessa treta do Dunker, mas me parece precipitado querer aplicar a PBE de maneira muito rígida às psicologias de hoje; penso que perderíamos muitas práticas que parecem ser efetivas – embora ainda não saibamos “porquê”. Agora, me parece fora de dúvida que a PBE deveria ser o horizonte e a meta de toda psicologia. Enfim, uma discussão que ainda vai render muito assunto…

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