Conclusões sobre Jung

Jung é um autor difícil de definir. Primeiro, ele parece místico. Então, vem uma camada de cientificidade não desprezível. Então, suas experiências com a loucura – sua e de seus pacientes – parecem interessantes, sobretudo porque ele teria encontrado sua própria cura. Então, mais uma vez ele se perde em construções mirabolantes – alquimia, astrologia, mitologia…

Tudo isso é Jung, e ainda mais. Talvez seja empobrecedor “encaixá-lo” em algum lugar. Ele não cabe nas definições, e esse bem pode ter sido o erro de Freud em relação a ele. Tivesse tido um pouco mais de flexibilidade, poderia ter Jung como seu colaborador, na fronteira entre a psicanálise e outras ciências. Mas não foi assim. Mesmo Freud tinha seus limites.

Winnicott entende que Jung era uma personalidade cindida. Ele se baseia na autobiografia que Jung escreveu para o livro “Memórias, sonhos, reflexões” – livro que Jung não considerava dele, próprio, mas de Aniela Jaffé. Winnicott também discute alguns conceitos junguianos, parecendo estar a par da obra do psiquiatra suíço.

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A análise de Winnicott faz sentido. Para ele, Jung precisou erigir uma esquizofrenia infantil para dar conta da depressão materna, numa idade de extrema dependência (do nascimento aos 03 anos). A esquizofrenia se caracteriza por uma cisão, um afastamento entre o mundo externo e o mundo interno. Geralmente, sentindo a impossibilidade de troca entre esses dois âmbitos, o paciente se refugia no mundo interno.

Para Winnicott, Jung estruturou essa problemática através de sua obra. Jung poderia ser compreendido como alguém que precisou se desligar do contato íntimo, emocional, com outros seres humanos, e tentou reencontrar esse contato através de sua obra.

Podemos entender conceitos como “inconsciente coletivo”, “arquétipos” e “símbolo” como conceitos que respondem à essa necessidade de “reencontrar o outro” – mesmo que esse reencontro seja um tanto impessoal e genérico. A rigor, não é o outro como pessoa, mas o outro como “espécie”, que a teorização junguiana enfocaria.

Também a crítica que Jung faz da teoria freudiana estaria fundamentada, segundo Winnicott, no fato de que o esquizofrênico realmente não chega a viver uma conflitiva edípica, porque sua questão é anterior. Trata-se da própria esperança de contato, de ligação, entre os seres humanos e o mundo.

Mas mesmo aceitando que essa foi uma das motivações do trabalho de Jung, isso não encerra as considerações sobre o seu valor.

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A crítica de Deleuze e Guatarri no Anti-Édipo é outro exemplo disso: a clínica dos esquizofrênicos não fala de “papai e mamãe”, não fala da infância, porque, em termos do desenvolvimento emocional, eles ainda não chegaram lá.

Jung está correto, portanto, em sua crítica à Freud. A teoria freudiana não tinha, ainda, um desenvolvimento que abarcasse a esquizofrenia. Inversamente, Jung não se sentia “descrito” pelos conceitos freudianos, relativos a um período do desenvolvimento diferente daquele em que ele vivia, a se acreditar na leitura winnicottiana.

Freud, como neurótico, fazia clínica de neuróticos. Jung, como esquizofrênico, entendia de esquizofrenia. Faz sentido, então, a proposta de Winnicott de que deveria haver uma maneira de integrar essas duas grandes vertentes teóricas. Jung representando o estudo dos alicerces da alma humana, ainda antes do estado de unidade subjetiva – momento de fazer a conexão da subjetividade com o mundo -, e Freud contribuindo para o estudo das complicações do ser humano já unitário, momento em que a questão é gerenciar todas as partes que nos compõe.

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Voltando à obra, por mais que sua motivação, em Jung, tenha ligação com a patologia, seu valor reside alhures. Winnicott mesmo nos convida a enxergar em Jung um relato das dificuldades e da maneira própria de ver o mundo que a esquizofrenia traz, assim como dos pontos de vista únicos que essa outra maneira de ser carrega consigo.

Vale dizer, a saúde é um campo estreito, um ponto limitado a partir do qual viver. É possível que precisemos viver a realidade a partir de outros pontos de vista também, para ter dela uma visão mais ampla. E é exatamente isso que Jung nos oferece.

Sua obra nos dá ainda uma outra visão a partir da qual entender o trabalho analítico. Precisamos testar, experimentar essa nova visão, para poder avaliar sua eficácia. Aqui, como sempre, é a clínica quem decide sobre a teoria, e não o inverso. Creio que há várias contribuições importantes de Jung sobre a clínica, e simplesmente as perdemos quando o encaixamos apenas no lugar de “místico” ou “esquizofrênico”.

Concluindo, Jung é, como qualquer teórico deveria ser, um caso para estudar. Ele talvez não caiba na definição estrita (e estreita) de ciência ou de saúde mental, mas isso é necessariamente um problema? Até que ponto nosso apego à norma não é uma defesa?

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