Nossa relação com o tempo não é “natural”. Crítica de Kant

Excerto de uma sessão com uma paciente difícil:

” G está “irritada, braba, com TPM”. É o que me diz logo ao começo da sessão. Penso se isso se relaciona com nossa última conversa, mas não. Sei que G ainda não é capaz de LIGAR OS TEMPOS, ligar as experiências, ter CONTINUIDADE.

Na supervisão falamos sobre isso: como essa é a uma das metas terapêuticas: ir “alargando”, aos poucos, no limite dela, esses pequenos fragmentos de “tempo” nos quais ela vive, pulando “de segundo em segundo”, de galho em galho: “agora” é um momento, “agora” é outro momento… e esses momentos NÃO SE LIGAM.

Logo, ela não aprende “com a experiência”, como diz Bion. Ela segue presa num presente infinitamente recolocado. Ás vezes essa ligação com o tempo VEM: então é um acúmulo de “culpas” que ela sente. É o “futuro” – agora tornado “presente” – que desaba sobre ela, com toda a destrutividade de algo que ela se esforçava muito para NEGAR.

Hoje falamos um pouco disso. Sei que ela logo vai esquecer. Vai cortar a ligação disso com o próximo instante, pois ESSA É A DEFESA DELA, ao mesmo tempo que sua incapacidade. Ela não CONSEGUE ligar os tempos (causa -> consequência), mas ela tbém não QUER fazer isso, pq implica numa RESPONSABILIDADE muito grande por si – responsabilidade que ela não aprendeu na relação com o ambiente.

Provavelmente, essa I-responsabilidade consigo espelha, repete, a não-responsabilidade que ela viveu na relação com o ambiente.”

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Somos assim colocados de imediato na questão do tempo. Se entendi bem, Kant propôs que o tempo era uma das categorias necessárias, estruturantes, do entendimento. Vale dizer, uma categoria “a priori”. Não é bem o que nos diz a clínica.

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Isso porque o tempo, em seu funcionamento subjetivo, não seria um “a priori”. Como os pacientes difíceis parecem apontar, é necessário um certo amadurecimento subjetivo antes de que possamos experimentar o tempo como continuidade.

A ligação do tempo (objetivo) com o “Eu” precisa ser estruturada na relação com o ambiente. Caso contrário, o “Eu” não experimenta o tempo como algo que “existe”. Não consegue suportar que cada instante tenha sua consequência. Não consegue projetar o que tal ação acarretará, no futuro, nem ligar as consequências vividas agora, com acontecimentos do passado.

Não se trata de uma falha cognitiva. Não é que a pessoa não tenha capacidade para prever, formular, imaginar hipóteses. O que é difícil é sustentar a responsabilidade que o tempo implica para cada uma de nossas ações.

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Porque se vivo “no tempo”, aceito que cada ato meu terá uma certa consequência, muitas vezes previsível e, como tal, parte da ação já no momento inicial. Isto é, viver no tempo complexifica o agora, o presente, com todas as complexidades previsíveis no futuro.

O mesmo vale para o passado: se sofro agora por algo que fiz ano passado, quer dizer que estou refém do tempo. Nesse caso, ainda é pior, porque já não posso mais modular minha ação presente visando controlar o futuro. A ação já aconteceu.

Mais um motivo para que aceitar subjetivamente o tempo seja um problema complicado. O tempo é parte da realidade. E o real, como dizia Winnicott, é uma ofensa. Ele não se submete à nossa ilusória, mas necessária, ilusão de onipotência. O que implica que só aceitamos o tempo, como só aceitamos a realidade, mantendo uma certa área da experiência onde o tempo não existe. Que é precisamente onde está vivendo minha paciente.

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Talvez fosse mais correto dizer que a paciente vive sobre dois regimes de tempo diferentes. De um lado, ela reconhece o tempo “objetivo”. Ela sabe que “amanhã” precisará acordar cedo, ou que marcou uma consulta “as 14hs”. O que ela não consegue fazer é integrar as exigências que esse tempo objetivo supõe ao gerenciamento de sua própria vida.

Assim, por exemplo, mesmo “sabendo” que tem um compromisso amanhã cedo, ela poderá varar a noite numa festa, e acabar não acordando. Não é que ela tenha negado o compromisso, ou se recusado a ir. Ela simplesmente não ligou as duas coisas. A festa, hoje, agora, é uma necessidade, algo que eu quero, e que, na experiência dela, não se comunica com o compromisso de amanhã. São duas coisas desconectadas, sem relação.

É nesse ponto que o tempo não é um “a priori” de nossa experiência. No fundo, o tempo, como a realidade, são frustrações que temos de suportar. Vale dizer, quanto mais aceito o tempo como realidade, mais isso altera meu presente, frustrando-o em seu valor de imediaticidade. Viver no presente – um dos ideais de nossa época – é entregar-se às intensidades que surgem no agora, sem “contaminá-las” pensando nas consequências, ou se isso repete algum padrão, etc. Isso pode ser positivo, em alguns contextos, mas quando se torna o regime exclusivo de relação com o tempo, é tão restritivo quanto viver num tempo sem presente nenhum.

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